O amor não existe
Quando constatou que o amor não existia quis ser uma atriz. Aquele amor doce, suave e romântico vendido nos filmes e nas novelas não existia: a realidade era um quadro de nuvens cinzentas no seu quarto de casal. Na pintura, os barcos afastavam-se lentamente da margem, ou assim ela imaginava. As duas embarcações à deriva, o mar agitado. Assim também era como se sentia ao lado dele. Às vezes, penetrava secretamente num desses barcos desenhados no quadro de seu quarto de casal, e ia. Então, quando já estava bem longe e distante, pontuava: há saudade. Então, um a um, esmiuçava seus amores: pais, filhos, espíritos santos. E um vento brando a levava de volta aos braços dele. Mas o amor não existia, lembrava-se outra vez. O homem ao seu lado era um homem amado, mas o homem ao seu lado estava tão ao seu lado que parecia um espelho sem alma.
