Archeira

10 Maio 2008

Submundo

Há muito tempo, quem me conhece sabe: eu conheço o submundo. Se na época da faculdade freqüentava os bares da Rua Farane, bebendo umas e outras sob a repreensão (e preocupação) da minha mãe, com o tempo acho que piorei. De Botafogo para a Lapa foi um pulo: lá, passei a ir ao velho Circo Voador e acompanhei o seu fechamento; vibrei com o talento de Teresa Cristina no bar Semente (sempre abençoando a bandeira tricolor); participei do primeiro Rio Folia, que começou a revitalização daquela região boêmia, no Carnaval de 1998; dancei no Tá na Rua; conheci pessoas ótimas mas sumi dali num dia em que voltei e encontrei um mar de gente caminhando na rua Joaquim Silva. O submundo, para mim, acabara. Também, pudera! Eu havia me transformado numa mulher casada e, posteriormente, com um filho, posição que, convenhamos, aquieta, além de exigir uma certa compostura.
Hoje, à beira dos "enta", surpreendo-me com meus comportamentos ainda semelhantes àquela época. Como posso, depois de tudo isso, de tantas "cambalhotas" que sofri, depois de me sentir já tão experiente, como posso, ainda, freqüentar o submundo, ainda que seja no Leblon? Um submundo em que jovens mulheres maquiadas e homens vestidos com camisas pólo "Ralph Laurens" consomem garrafas e mais garrafas de champanhe "Moet et Chandon" sem a menor parcimônia, estourando suas rolhas aos ouvidos daquele público indiferente à cena tão vexatória. E o pior é que não era uma cena exibicionista nem de infantilidade ostentatória. Era uma realidade sem noção e ponto final. Não há certo ou errado, há apenas submundos.
Eu, particularmente, prefiro a Lapa.

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Eternidade

Não quero mais a ilusão de possuir a eternidade do seu corpo junto ao meu por uma noite, um mês, um ano, o resto da vida. Quero a imobilidade completa que se dá no mundo naquele exato momento em que estamos juntos: cinco minutos, meia hora, um ano, o resto da vida. O tempo que pare! Hoje entendo que isso se chama felicidade.
Quero não ser dramática ao falar de resto da vida, pois seremos sempre o que restou de nós nas nossas lembranças e a única coisa que preciso é te amar assim.
Assim, como quem domina o tempo.

01 Maio 2008

Cheiro

Às vezes, sinto o cheiro da minha mãe.
Normalmente, quando estou me penteando. Parece que vem de dentro de mim, aquele cheiro seco, de pele sem perfume. Então, a lembrança do seu rosto, seu corpo e sua voz. Lembro-me de como gostava de se perfumar. Pó-de-arroz...talco...lavanda de alfazema. Cheiro de velha. Mas a minha mãe não envelheceu. Tinha o rosto liso, intato. Então, o cheiro que sinto é de mãe.