Histórias da rua
Sábado, 22h30min. Av. Bartolomeu Mitre, Leblon. Proximidades do supermercado Zona Sul, perto do 23º Batalhão de Polícia Militar. No total, cinco camburões da PM, sirenes acesas (sem som), duas Kombis brancas e três homens do lado oposto dos carros. Eles estavam abordando uma moradora de rua: uma senhora, que “mora” há mais de dez anos naquele ponto da rua, no muro do Batalhão.
C. vive, como ela mesma me disse, e já é notório para quem vive ou passa por ali diariamente, há mais de dez anos, nos muros do Batalhão da PM da Bartolomeu Mitre. Ela vive de fazer crochês (bolsinhas, jogos americanos, tiaras, essas coisas). Contou-me que nasceu em São Paulo, não tem família, trabalhou como empregada doméstica e acredita que tem um bom dinheiro pra receber do Banco do Brasil, que lhe foi "roubado". Vive nas ruas há tanto tempo, enrolada nos seus sacos de lixo pretos, fazendo seus crochés, conversando com um e com outro. C. disse-me, ainda, que chegou a ir para abrigos por duas vezes, mas que em nada a ajudaram. Ela demonstra estar bem informada - tem medo de a agredirem, queimando-a ou espancando-a, como "anda na moda", diz, expressando-se muito bem. Usa palavras como "intransferíveis", faz concordâncias e demonstra certa inteligência ao me comparar com a filha de uma antiga patroa, antes de me pedir emprego. Talvez peça emprego porque sabe que ninguém lhe dará um... ela não é uma pessoa normal, mas está ali, adaptada, naquela rua, naquele canto. Informei-lhe que estava fazendo tantas perguntas porque sou jornalista e gostaria de escrever alguma coisa sobre ela e a cena que presenciei, dos caras arrancando-lhe os plásticos pretos com certa brutalidade. "É?", duvida. "Você parece tão novinha...". E diz que sempre que alguém aparece nos jornais, morre. Ela não quer morrer. Diz: "é melhor me deixar quieta, antes que venham de novo e me batam". E corrobora, dizendo-me que "eles" voltaram no dia seguinte para levá-la. C. mostra-se informada: "não viu, lá em São Paulo? (mendigos atacados recentemente)". De repente, ela parece se empolgar e começa a falar sem parar...eu tenho tempo livre naquele momento, mas já consegui as informações que precisava. Tento me despedir. Mas ela precisa conversar mais. Então, deixo-a falar mais um pouco e peço que fique em paz, digo que outra hora passo pra falar com ela.
Vou embora, esquecida do motivo real pelo qual parei: o fato de que presenciei um verdadeiro aparato policial para levá-la embora para um abrigo e as reflexões que fiz daquela cena. As cidades, num sentido cosmopolita mesmo de ser, têm essa característica estranha de serem terras de todos e terras de ninguém. Detenho-me num sinal, pensando nessa estranheza que deve ser morar no meio de uma avenida barulhenta, como ela. Correndo riscos. Sofrendo insônias, temerosa. Assaltos. Frio. Fome. E ainda é melhor do que um abrigo da Prefeitura, criado especialmente para cuidar de pessoas como ela. Por quê?
Liberdade. Talvez seja o resto de dignidade que uma pessoa pode ter: o direito de ir e vir - ou de ficar, parada, "estacionada" onde bem quiser, fazendo croché, ué.
E quem lhe daria emprego?
É...as cidades, muitas vezes,"matam".
C. vive, como ela mesma me disse, e já é notório para quem vive ou passa por ali diariamente, há mais de dez anos, nos muros do Batalhão da PM da Bartolomeu Mitre. Ela vive de fazer crochês (bolsinhas, jogos americanos, tiaras, essas coisas). Contou-me que nasceu em São Paulo, não tem família, trabalhou como empregada doméstica e acredita que tem um bom dinheiro pra receber do Banco do Brasil, que lhe foi "roubado". Vive nas ruas há tanto tempo, enrolada nos seus sacos de lixo pretos, fazendo seus crochés, conversando com um e com outro. C. disse-me, ainda, que chegou a ir para abrigos por duas vezes, mas que em nada a ajudaram. Ela demonstra estar bem informada - tem medo de a agredirem, queimando-a ou espancando-a, como "anda na moda", diz, expressando-se muito bem. Usa palavras como "intransferíveis", faz concordâncias e demonstra certa inteligência ao me comparar com a filha de uma antiga patroa, antes de me pedir emprego. Talvez peça emprego porque sabe que ninguém lhe dará um... ela não é uma pessoa normal, mas está ali, adaptada, naquela rua, naquele canto. Informei-lhe que estava fazendo tantas perguntas porque sou jornalista e gostaria de escrever alguma coisa sobre ela e a cena que presenciei, dos caras arrancando-lhe os plásticos pretos com certa brutalidade. "É?", duvida. "Você parece tão novinha...". E diz que sempre que alguém aparece nos jornais, morre. Ela não quer morrer. Diz: "é melhor me deixar quieta, antes que venham de novo e me batam". E corrobora, dizendo-me que "eles" voltaram no dia seguinte para levá-la. C. mostra-se informada: "não viu, lá em São Paulo? (mendigos atacados recentemente)". De repente, ela parece se empolgar e começa a falar sem parar...eu tenho tempo livre naquele momento, mas já consegui as informações que precisava. Tento me despedir. Mas ela precisa conversar mais. Então, deixo-a falar mais um pouco e peço que fique em paz, digo que outra hora passo pra falar com ela.
Vou embora, esquecida do motivo real pelo qual parei: o fato de que presenciei um verdadeiro aparato policial para levá-la embora para um abrigo e as reflexões que fiz daquela cena. As cidades, num sentido cosmopolita mesmo de ser, têm essa característica estranha de serem terras de todos e terras de ninguém. Detenho-me num sinal, pensando nessa estranheza que deve ser morar no meio de uma avenida barulhenta, como ela. Correndo riscos. Sofrendo insônias, temerosa. Assaltos. Frio. Fome. E ainda é melhor do que um abrigo da Prefeitura, criado especialmente para cuidar de pessoas como ela. Por quê?
Liberdade. Talvez seja o resto de dignidade que uma pessoa pode ter: o direito de ir e vir - ou de ficar, parada, "estacionada" onde bem quiser, fazendo croché, ué.
E quem lhe daria emprego?
É...as cidades, muitas vezes,"matam".
