Archeira

05 Janeiro 2007

Deixe-me, equivocada, pensar na realidade da sua presença. Do seu cheiro. Da sua inexistência. E, a partir daí, da fantasia do seu cabelo, do seu sorriso, da sua personalidade, ou do seu não-ser, imaginá-lo.
Fechei a porta do banheiro para fingir uma intimidade que não existe: somos. Vesti calça jeans e blusão fechado para esconder minha pele branca, meus pelos, eu, como se você não me conhecesse. Bobeira, eu sou assim. Gosto de ser assim. Gosto de me mostrar mulher quando quero, gosto de mostrar-me estranha quando quero, gosto de mostrar-me imatura, gosto de misturar-me, gosto de ser, gosto de não ser. A vida é isso mesmo, v-i-d-a, com suas quatro letras, com sua capacidade tomada. Vida. Imbuída de um sentimento de morte, que mais é impotência. E que nos domina e nos deixa ir...para quando nos quiserem.

"Embriagai-vos" - Baudelaire

"É necessário estar sempre bêbado. Tudo se resume a isso, eis o único problema. Para não sentir o fardo horrível do tempo, que abate e faz pender a terra, é preciso que nos embriaguemos sem cessar. Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, como achar melhor. Contanto que nos embriaguemos.
E se, algumas vezes, nos degraus de um palácio, na verde relva de um fosso, na desolada solidão do nosso quarto, você despertar com a embriaguez já atenuada ou desaparecida , pergunta ao vento, à onda, à estrela, ao pássaro, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, pergunta-lhes que horas são; e o vento, e a onda, e a estrela, e o pássaro, e o relógio, hão de vos responder.
- É a hora da embriaguez! Para não ser martirizado pelo tempo, embriagai-te. Embriaga-te sem tréguas.
De vinho, de poesia, ou de virtude, como achar melhor".