Archeira

26 Junho 2006

Escrever: meu ofício sagrado

Esta história de querer ser escritora vem de longe, lá da minha infância. Naquela época, muito pela influência do meu pai, que é jornalista, eu gostava de colocar as laudas amareladas que ele guardava para mim na máquina de escrever e ficar martelando as teclas como se estivesse dizendo algo. Na maioria das vezes, eram bilhetinhos, histórias sem pé nem cabeça, contos fantásticos de formigas falantes e melancias despedaçadas.
Ser escritora, para mim, foi uma cisma, um destino que desejei seguir. Quanto mais queria ser escritora, mais lia. Precisava saber como os autores conseguiam contar uma história de modo tão interessante e de onde vinham suas idéias geniais. Queria muito ser um deles. Anos depois, constatei a tolice: eu precisaria, no mínimo, ser eu mesma. E assim é que comecei a me expor, primeiro para os amigos e parentes, mostrando algumas das quais considerava as minhas mais completas composições; depois parti para a internet e aqui me dediquei longo tempo. Hoje estou mais quieta, escrevendo com pudores e à mão.
Não sou uma escritora. Sou alguém que aos poucos vem retomando um ofício que considera sagrado, tão sagrado quanto a solidão que precisa para exercê-lo.

16 Junho 2006

Surdez no fim

Ser surda é algo que não quero mais. Descobri recentemente a doença que causa a minha surdez: otosclerose. Até hoje, não se sabe o que causa a doença. Diz-se que é hereditário, embora ninguém na minha família jamais tenha tido.
O problema piora de modo considerável após a gravidez e acomete, em geral, um dos ouvidos. No meu caso, o esquerdo. Há uns sete ou oito anos, falando ao telefone, comecei a perceber a surdez. A perda auditiva acontece de modo gradativo, por isso, não raras vezes, o diagnóstico é difícil. Descobri sem querer, fuçando na internet, que Beethoven ficou surdo por conta da otosclerose. Para me sentir mais importante, se é que me serve de consolo, gosto de passar esta informação adiante.
O fato é que convivo há tantos anos com esse problema, mas que agora, justamente depois do nascimento do Pedro, piorou demais. Muitas vezes passo por distraída, abestada (se bem que eu seja mesmo um pouco), displicente, quando a verdade é que, simplesmente, eu não escuto. Repetir "hã"? "Hein"? "O que você disse?" toda hora é incômodo tanto para mim quanto para quem fala.
Consegui encontrar um médico competente para me operar, o que deve acontecer em breve. Estou com medo e ansiosa, ao mesmo tempo. Em um mês, um mês e meio, acredito, estarei escutando novamente. Estou com medo não só da operação, mas da mudança que vai acontecer comigo mesma, implicando principalmente na melhora da minha auto-estima, inclusive para poder trabalhar melhor.

Sombrio

Este blog andava muito sombrio...

Recomeço

A cada dia, um novo mundo é minha cria. Porque sei que por uma quase obrigação intuitiva busco olhar para a cidade onde moro como se jamais a tivesse visto. E um mundo novo - sem ritmo, branco, violento, com cheiro de criança quando nasce - me surge. O quanto é possível ficar só neste lugar? Apenas.Há aquilo tudo que quero dizer e há aquilo que não sabia que queria dizer, mas disse.Por isso, sem medo, volto.***Vulto negro no chão da sala. Palavras sem sentido para que eu não seja (propositadamente) entendida.Quero o intenso, o vidro da janela suja.Pra quê?Pra me desconectar do admirável, do novo e, principalmente, do mundo.