Odeio dar informação errada
Na verdade, a família me passou a informação errada ontem. O Hospital da Posse, na verdade, foi o único hospital a tratar da menina com dignidade. Infelizmente, foi o último lugar onde a levaram.
O verdadeiro hospital culpado pela falta de atendimento e descaso foi o Hospital Infantil de Duque de Caxias.
Indignação
Confesso que quando o meu marido me pediu para redigir uma carta denunciando o ocorrido com a filha da nossa empregada, resisti. Quem se interessa pela saúde da população de Nova Iguaçu? De Belford Roxo? Queimados? Baixada Fluminense? Pior do que a falta de interesse é pensar que é inútil, e isso é o que quase me fez abortar esta carta. Mas, vamos lá.
Maria de Fátima Ferreira Nunes, 48 anos, mãe de seis filhos: Kate, Grace, Andréia, Jenifer, e mais duas que não lembro os nomes. A mais nova, com seis anos, acabou de falecer no Hospital da Posse, em Nova Iguaçu.
Abro aqui um parênteses, retirado do site super moderno da Prefeitura de Nova Iguaçu:
“No Hospital da Posse, o maior da Baixada Fluminense, o setor de Emergência foi totalmente reformado, e os funcionários, qualificados em cursos de humanização do atendimento. As compras de remédios e material passaram a ser mais transparentes, com o sistema de pregão eletrônico. Além disso, o hospital ganhou R$ 10 milhões do Ministério da Saúde, que serão investidos em equipamentos de tecnologia de ponta, e agora é um centro de referência em captação de órgãos para transplantes”.
É ótimo saber que o setor de emergência do hospital foi totalmente reformado, mas é preciso averiguar onde os funcionários fizeram este tal “curso de humanização do atendimento”. Sim, porque a menina de seis anos que acabou de falecer estava com hepatite e esteve no hospital, na emergência reformadíssima, por três vezes.
Na primeira vez, “a equipe qualificada em cursos de humanização do atendimento” mandou que a família retornasse com ela pra casa. A família implorou para ela ficar internada, pois sabiam que não tinham condição de cuidar dela e que a doença já estava num estágio avançado, com a urina bem escura, a barriga inchada. Mas não, de nada adiantou o apelo. Na segunda vez foi diferente: aceitaram interná-la, mas só por um dia, pra tomar um “sorinho” e fazer um exame de sangue que ficaria pronto dali a um mês, quando, é óbvio, ela já não precisaria mais dele....
Ontem, finalmente, ela “conheceu” a emergência reformada do Hospital da Posse, com direito a atendimento “humanizado” e tudo - como se todo atendimento ao público não devesse ser humanizado, principalmente em hospitais, e isto fosse um diferencial. Também, pudera! Estava delirando, amarelada, sem reconhecer as pessoas, com a barriga inchadíssima. Só que hoje já não adiantava mais. Hoje, quem implorava ao hospital pra levar a filha pra casa era sua mãe.
Será que a emergência reformada com equipe humanizada existe só para manter o Hospital da Posse como uma “referência em captação de órgãos para transplantes?”.
Estou indignada. A minha raiva é ter certeza de que isto que denuncio agora não vai mudar nada. A filha da minha empregada que faleceu de hepatite apenas aumenta a estatística de filhos de empregados da nossa terra mãe gentil que morrem todos os dias de dengue, hepatite, bala, porrada, e outras centenas de histórias tristes que estamos – lamentavelmente – quase acostumados a escutar.
Quase, pois “hay que endurecer, pero sin perder la ternura, jamás”.