Archeira

27 Dezembro 2005

Fim de ano

Percebo como o cotidiano despersonaliza nossas almas. Olho os carros e seus motoristas nervosos, buzinando. No banco, a senhora chora. No supermercado, um idoso me xinga: esta fila é preferencial para idosos, não está vendo? Sim, meu senhor, eu vi. O supermercado está vazio e o senhor disse bem...”preferencial”, que não significa “exclusiva”. E bláblábláblá. E acredito piamente que não sei mais escrever. Meus dedos pipocam desidrose, meu filho está engatinhando, meus amigos sumiram.... é assim, tudo calado, tudo parado e simultaneamente agitado, eu com meus problemas, eu com minhas alegrias, e o tempo me atropelando.
São sete horas da manhã e essa é a hora. É a semana da virada e que em janeiro não vira nada, porque já estou mesmo com tudo virado, com mil planos e decisões, mas preciso esperar o tempo. Que venha o tempo. Que eu vá ao tempo. E que eu, também, consiga espantar a insônia em 2006.

21 Dezembro 2005

Frase chula (do dia)

Filho é igual peido: você só aguenta o seu.

09 Dezembro 2005

Tentar não tem retorno

comece a escrever, por exemplo, sem saber exatamente o quê. Pare na frase seguinte e olhe pra trás: o que você escreveu? nada. você escreveu nada. mas está tentando; lembra-se? (ainda sabe usar a interrogação). sabe que não pode voltar. que, principalmente, não quer voltar.
que daqui pra frente sua escrita é diferente.
se antes não sabia sequer falar, agora, pelo menos, sabe escrever. é fácil - pára e pensa. basta sentir, deduz. ao escrever a palavra "deduz" visualiza a palavra deus. não sabe bem porquê.
- sabe por que não, bem?
e ri. um riso sádico de menina mimada pelo pai.
mudou de assunto mas sabe que já não tem retorno.
quem escolhe, não volta.
poderá ser bom, poderá ser ruim.
mas você só saberá depois de ler-se (ou reler-se).

02 Dezembro 2005

Frutos

"Achava belo, a essa época, ouvir um poeta dizer que escrevia pela mesma razão porque uma árvore dá frutos. Só bem mais tarde viera a descobrir ser um embuste aquela afetação: que o homem, por força, distinguia-se das árvores, e tinha de saber a razão de seus frutos, cabendo-lhe escolher os que haveria de dar, além de investigar a quem se destinavam, nem sempre oferecendo-os maduros, e sim podres, e até envenenados." (Osman Lins - "Guerra Sem Testemunhas").

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Um poeta escreve porque escrever é "dele". Mas é "dele", também, fingir.