Archeira

23 Novembro 2005

Da janela de casa



Foto: Marco Leite

Vida longa

Pedro vai fazer nove meses. Já. Os nove meses da gravidez demoraram uma eternidade, mas agora, passados os três meses iniciais, ele JÁ vai fazer nove meses. E aí eu entendo o porquê das mães me dizerem - inclusive a minha - que é pra eu curtir muito, que passa rápido. Então, temendo o tempo e tentando fingir que ele não existe, eu curto o meu filho. Mas depois fico pensando nesse "passar rápido". Não acredito que seja tão rápido. A menos que eu não preste atenção nele ou não acompanhe o seu desenvolvimento. Uma semana é coisa à beça. Um dia. Pela primeira vez eu começo a dar valor a um dia. Parece incrível, mas é real: é mais um dia com o meu filho, não é mais um dia qualquer. Todos os dias, desde 5 de março, são dias com o meu filho. E eu quero aproveitar todos os momentos do seu crescimento, até que ele se sinta seguro para estar só. E me dê um neto.
E falando assim lembro que a vida é longa e eu tenho tanto a fazer....

18 Novembro 2005

Tédio

Tédio I
A morte do pássaro
De repente, estou sem palavras. A única que me ocorre é “pássaro”. Estar sem palavras é sucumbir ao tédio. É contemplação, despeito, inveja, frustração. Eu estou sem palavras? Como, se as educo, com pulso firme? Minhas filhas soltas me traem, mentem, despem-se, me fazem tola. Por vezes, riem de mim. Meu Deus, eu não queria! Mas quando dou por mim, a palavra está solta como o pássaro cego que me veio, vagando pela sala, sem direção. Os vidros da janela fechados, transparentes, e o pássaro debatendo-se contra o vidro querendo sair, voar, mas...não há tempo de levantar a guilhotina: Morte. O pássaro morto no chão da sala.
Apesar de, asas abertas.

TédioII
Ah, como preciso desse instante, desse momento quieto! Não é todo dia que eu posso ficar de silêncio em silêncio driblando idéias, angustiando-me com o que fazer de uma sexta-feira ensolarada e brincar de olhar as nuvens e ouvir o barulho chato do amolador de facas. Afiando a língua e relevando o tédio.

11 Novembro 2005

Café

Volta e meia ela acordava assim, amargurada. Fazia um café bem forte e bebia sem açúcar mesmo, com um cigarro para acompanhar. Ligava o som e punha uma música triste. Calada, ouvia e pensava. Às vezes batucava com os dedos na mesa e olhava ao redor, tentando achar algo para ler enquanto a hora não passava. Avistava uma revista velha no canto da sala, mas tinha preguiça de levantar-se para buscá-la. Inerte, e porque já a havia mesmo lido, desistia. O bloco de papel estava mais próximo. Esticava o braço para pegá-lo. A caneta estava sempre sobre a mesa. Escrevia com sua letra de caligrafia feia palavras soltas: pipa, tucano, viagem, irmã, papel, árvore, aro, arco-iris. Café amargo. Vida amarga.
Desenhava, rabiscava flores e escrevia inúmeras vezes seu nome como a certificar-se de que era ela mesma, fumando e tomando café, que estava a sentir tais coisas.

Publicando velhos textos

Verde Amor
Meu amor cresce como o mato, sem muito cuidado, para todos os lados. Logo é floresta e de longe é bonito. Tiro fotos de suas folhagens para mandar aos desconhecidos. Virou cartão postal no Alaska, terra branca. Mas de perto, é embrenhado... Mata cerrada. Às vezes, o escuro esconde os bichos. E as estrelas. É que de dentro da mata as copas das árvores são o meu céu. Não, não: meu céu é todo eu! Verde como a folha mais verde de todo esse verde - se não é esperança, é natureza. O meu céu sou eu transformando em mim todo o meu amor. E a natureza? É um vício verde que alimenta? Como todo esse amor? Ou engulo? Meu amor é você verde sorrindo para tudo que escrevo sem pensar, para tudo que leio e tento te passar, para tudo que amo por te amar, porque me amo mais por isso.