Archeira

18 Fevereiro 2005

Silêncio

Prezo o silêncio como quem reza. É como se só aqui estivesse com vontade de estar. Calada, neutra, interna: silenciosa. Mas sei que não. Precisar de silêncio tornou-me parcialmente surda? Então não ouço. Desejaria não ouvir muita coisa. Mas entristecerei se não puder ouvir algumas vozes que tanto amo. A minha nem tanto. Falo por aqui mesmo.
Eu quero inventar um quarto silencioso e literário onde eu possa me deitar e me expressar cada vez que esse barulho estranho do mundo tenta me corromper. Eu necessito desse lugar, amplo, infinito, literário e único. Um lugar onde eu possa me criar sozinha.
E em silêncio.

10 Fevereiro 2005

Amor Menino

Tudo cura o tempo, tudo faz esquecer, tudo gasta, tudo digere, tudo acaba. Atreve-se o tempo à colunas de mármore, quanto mais a corações de cera! São as afeições como as vidas, que não há mais certo sinal de haverem de durar pouco, que terem durado muito. São como as linhas que partem do centro para a circunferência, que, quanto mais continuadas, tanto menos unidas. Por isso os antigos sabiamente pintaram o amor menino: porque não há amor tão robusto que chegue a ser velho. De todos os instrumentos com que o armou a natureza, o desarma o tempo. Afrouxa-lhe o arco, com que já não atira; embota-lhe as setas, com que já não fere; abre-lhe os olhos, com que vê que não via; e faz-lhes crescer as asas com que voa e foge. A razão natural de toda essa diferença é porque o tempo tira a novidade às coisas, descobre-lhe os defeitos, enfastia-lhe o gosto, e basta que sejam usadas para não serem as mesmas. Gasta-se o ferro com o uso, quanto mais o amor? O mesmo amar é causa de não amar e ter amado muito, de amar a menos.
Padre Antônio Vieira. Sermões.