Archeira

29 Outubro 2004

A louca da Casa

Acabei de ler este livro da jornalista Rosa Montero e tirando algumas repetições do caso amoroso dela, o livro é muito interessante. Um questionamento dela me chamou a atenção. "Se você precisasse optar entre parar de ler ou parar de escrever, o que escolheria?".
Parar de escrever, sem dúvida. Pelo menos para mim. E, segundo ela, para muitos. O que é a vida sem a leitura? O que é a escrita senão a leitura que a gente faz de nós mesmos e das situações que vivemos? Credo, seria catastrófico e alienante viver sem ler.

Sonho

O neném estava sentado na cama, era um menino e vestia um casaquinho vermelho. Era bastante cabeludo e branquinho. Eu o deixava sozinho, sentadinho, enquanto minha mãe me dizia: "filha, eu te ensinei, agora é você que vai fazer, é você que vai fazer, é você que vai fazer, é você que vai fazer, é você que vai fazer..."

Os barulhos da cidade

Moro numa rua barulhenta. Tenho uma deficiência auditiva de 80% no ouvido esquerdo que me torna quase uma surda. Talvez isto explique a minha distração, um certo "autismo" que apresento e até mesmo muitos desentendimentos que já vivi. E é por isso mesmo que eu me assusto com um fato que me atormenta: os barulhos da cidade. Como me irritam os barulhos da cidade. Campainhas de estacionamento, buzinas, britadeiras na Praia do Leblon, o apito do Pelé no sinal da rua Joana Angélica, o grito do vendedor de abacaxi no posto 9, a arrancada dos ônibus nos pontos, os volumes altos no som de alguns carros, as pessoas conversando aos berros em celulares ou com amigos dentro do ônibus. Eu gosto e preciso do silêncio. Eu quase nem ligo a televisão por isso. Eu odeio gritos. Talvez seja medo de ficar surda de vez. E se eu não puder ouvir mais uma música do Nelson Cavaquinho? Ou um som de guitarra e uma apresentação de orquestra? E se eu não puder ouvir mais a trilha sonora de um filme? E se eu não puder ouvir mais a sua voz? E o mar?
E se eu nunca mais me ouvir?
Todos os sons que me interessam estão dentro da minha cabeça. Eu nunca ficarei surda.

Orkut

Minha paciência para o Orkut é igual a zero.

27 Outubro 2004

Sandália vermelha

A única coisa que consegui ver foi uma sandália vermelha. Estava num fundo amarelado, sozinha, incompleta. Apenas um pé da sandália: o esquerdo. De quem era, não sei. Mas como era bonita a sandália. Alta, classuda. E eu a observando como se não tivesse assunto ou nada mais na vida para fazer se não observar uma sandália vermelha num fundo amarelo.
Meus pés, então, manifestaram-se. Observei-os. Era o desejo de calçá-la. Unhas sem cuidados, a disformidade de alguns dedos. Não encontrar beleza nos próprios pés; eles lindos, compondo um visual frenético, apaixonado. Boca e beijo: palavras. Tudo isso calçado num único pé de uma sandália vermelha que eu vi num fundo amarelo. Por um descuido, enquanto estive sozinha, incompleta, dela me lembrei e foi assim que a calcei.

19 Outubro 2004

Carta ao meu filho(a)

Querido (a),
É muito estranho que eu esteja te escrevendo sem sequer, ainda, te conhecer. Não sei seu rosto, seu corpo -sua alma pressinto. Estou grávida há apenas 3 meses e parece que faz um ano. Até você nascer, será uma eternidade e terei envelhecido 10 anos de tanta ansiedade.
Sinto vontade de te contar algumas verdades sobre a vida, mas sei bem que nem todas posso contar, você se assustaria. O meu maior desejo, além de tê-lo(a) nos braços, é que sejas bem saudável emocionalmente.
Você deve ter percebido que durante um tempo estive mais calma, mas a trégua acabou: voltei a chorar. Se bem que, para ser sincera, não me recordo de um dia, de fato, ter parado.
Não compreendi não ter sentido nada até agora. Nem enjôo, nem cólica, nem salivação, nem tonteiras, nada. Só o meu pensamento se transforma, é ele quem dá reviravoltas, vomita e enjoa. Você, não, parece tranqüilo(a) na sua missão de formar-se.
Falar sobre os meus medos, minhas preocupações, não considero que valha a pena. São normais e existem, e talvez sejam a razão das minhas angústias esporádicas e do meu choro compulsivo e incompreendido. No mais, aguardo um movimento seu, para saber que a minha voz você já ouve. Por enquanto, receba estas palavras.

18 Outubro 2004

Lançamento

Amanhã, na Livraria Argumeto, lançamento do livro "Pessoas do Século Passado", do meu querido Dodô.

17 Outubro 2004

Pessoas do Século Passado

O conto "Amarelo", publicado aqui e no O Caixote, também está lá no www.pessoasdoseculopassado.com.br

12 Outubro 2004

Retorno quase em segredo

Houve um tempo em que eu me sentava na quina do mundo e assistia meu desabrochar lá embaixo, por entre as pedras das minhas incongruências. Hoje, não consigo mais. O lugar ainda é meu, estou certa disso. Tanto que, nele, caibo com perfeição: refestelada. Sorrio e até ensaio uma cantoria, mas não sai nada. Sou desafinada e, além disso, estou muda. Psicografada. Sincopada. Triste.
Quero esse lugar de volta e, pouco a pouco, o silêncio volta a me dar crédito. Se retrai inteiro, feito uma concha, pra me ouvir. Então eu vou me libertando, insegura, até desaguar-me por inteiro num lugar qualquer. Na extensão ideal do que preciso para limitar-me. Porque esse espaço, eu sei: é meu. Aqui me incluo com precisão e amor, palavra por palavra. Imperfeita – refeita – perfeita - rarefeita.
Assentada.
Torno a escrever. Não que algum dia eu tenha parado. É que por vezes a gente não mede as palavras. Trata-as sem cuidado, sem carinho, de modo inconseqüente. E não foi assim que comecei a gostar de alinhavá-las, mas é que estive agindo assim durante um ano ou mais -falando sem pensar.
Não pretendo reescrever nada, apenas voltar ao instante onde estava e reconduzir minha vida com as melhores frases possíveis, do ponto onde havia parado. Hoje, quero o novo. Quem retorna quer reiniciar um ciclo, buscar nele sua originalidade. Por onde andava o meu velho amigo, o verbo “aproximar”, por exemplo? Há anos que não o uso. Talvez, porque eu mesma estivesse tão distante (ainda que sem reticências). Se agora retorno é por uma razão pessoal: um segredo. De tão íntimo, incomunicável e misterioso, nem eu saberia revelar a razão de ter voltado a escrever.
Que pensem ser por amor.
Ou não é, também, escrever, um ato de amor?

08 Outubro 2004

Medo

Nunca tive medo de sair à noite no Rio. Desafiava a violência e sempre freqüentei a noite da cidade, da Lapa ao Leblon, muitas vezes de ônibus, não raras vezes embriagada e a pé. Eu costumava voltar do Circo Voador para Laranjeiras, passando pela Rua do Russel e nunca me aconteceu nada.
De um mês pra cá comecei a sentir medo. Será a gravidez? E medo da polícia também.
Primeiro lance: voltando da casa de um amigo, 3 da madrugada, descendo de carro a rua Marquês de São Vicente. Uma blitz com policiais camuflados no escuro apontaram fuzis na nossa direção, e exaltados, gritaram "pára, pára, pára". Mãos ao alto!, paramos. Nada não, tinham se assustado. "Devagar, meu irmão", disseram. Minha dúvida: 50km/h é rápido?
Segundo lance: mais ou menos a mesma hora, Praça do Jockey, sinal fechado. Avançamos, normalmente, como fazem todos os cariocas que saem na madruga. Polícia surge com sirene atrás da gente até bem depois do Shopping da Gávea. "Vocês avançaram o sinal, estão escoltando o caminhão?". De fato, um caminhão, esse sim sinistro, avançou o sinal antes de nós. Levamos vinte minutos para convencer os policiais de que não estávamos escoltando o caminhão, de que morávamos bem ali na frente, e que avançar o sinal de madrugada é permitido, principalmente numa rua preferencial.
Para culminar, ontem, em Botafogo, tivemos o carro arrombado e o toca-fitas furtado. Maior do que o prejuízo do rádio é a porta empenada e o medo que aumenta.

06 Outubro 2004

Às vezes, em outubro, é o que se passa.

Quando nada acontece, e o inverno termina, e o sol começa a surgir, também as flores põe-se a fingir que são as donas da estação, e o frio se despede, voltam os casacos aos nossos guarda-roupas, soltos os cabelos das meninas e dispersas nossas palavras: isso é o que acontece. A inquietude e a desesperança somem e não busco razões para tudo no meu coração.

(E se eu me inspiro em poemas para escrever qualquer coisa, assim como quem um dia quis ser Deus e criou alguém tão perfeito que só caberia mesmo em um poema, o que posso fazer? Já pensou quanto amor é preciso para inventar um mundo? Quero materializar meu universo mágico, e desejar mais do que imagino ser capaz, sem afirmar nada depois. Para onde enviarei a incapacidade de me expressar? Mas como? De que maneira conseguirei isto, sem me ausentar? Confesso aqui todo o meu amor por poemas bem feitos, pessoas apaixonadas, pela beleza e por tudo o que não consigo dizer, senão nas entrelinhas).

04 Outubro 2004

"Os 11"

Amanhã, na Fundação Casa de Rui Barbosa, das 18h às 21h30, lançamento do livro "Os 11", do nosso camarada, o escritor paraense Edson Coelho.

03 Outubro 2004

Desejo de escrever redondo (ou catarse)

Gostaria de fazer com o meu texto o que o malabarista faz com os malabares. Seria mais ou menos assim: jogaria uma palavra aqui no alto do primeiro parágrafo e a buscaria no final de tudo, de preferência na última linha, bem perto do ponto final. Só não decidi, ainda, qual palavra seria esta. Enquanto isso, o leitor, curioso, quando começasse a olhar letra por letra, veria círculos, alguns coloridos, e sobressaltado diante de tantas cores e formas, sofreria uma espécie de catarse hipnótica seguindo, absorto, texto adiante.
Se por acaso meus braços se cansassem, disfarçaria. Usaria um monte de palavras fáceis e alguns verbos bem simples.
Sou, estou, pareço ou fico?
Usaria um antigo truque que inventei, de inserção instantânea de palavras. “Preguiça”, por exemplo, seria bem disposta no meio do segundo parágrafo, como um dia fiz com “paralelepípedo” para completar um texto que precisava ter um número exato de caracteres.
Escrever é melhor do que perder a paciência. Porque existem aqueles que se enternecem lendo, ouvindo música, jogando baralho, caminhando. Parece que estou fazendo tudo isso enquanto escrevo ― basta sentir. É bom descobrir isso tudo impresso em preto e branco, mesmo que não sirvam pra nada.
O meu desejo agora é escrever redondo. Bem redondo. Curto e circular. E se alguém me pedisse: “mande um texto redondinho aí”, eu me sentaria e criaria um texto quase cartográfico, delimitado, transgressor, técnico e debochado, arrojado, sem eira nem beira – mas quase perfeito.
Estamos perto do ponto final e não decidi ainda qual a palavra que deveria vir buscar, para fechar de modo lúdico. Trata-se de um desejo e não há exatidão que me domine. Eu chutaria qualquer palavra que por aqui viesse me esbarrar em meio a esta catarse.

02 Outubro 2004

O Caixote

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