Gostaria de fazer com o meu texto o que o malabarista faz com os malabares. Seria mais ou menos assim: jogaria uma palavra aqui no alto do primeiro parágrafo e a buscaria no final de tudo, de preferência na última linha, bem perto do ponto final. Só não decidi, ainda, qual palavra seria esta. Enquanto isso, o leitor, curioso, quando começasse a olhar letra por letra, veria círculos, alguns coloridos, e sobressaltado diante de tantas cores e formas, sofreria uma espécie de catarse hipnótica seguindo, absorto, texto adiante.
Se por acaso meus braços se cansassem, disfarçaria. Usaria um monte de palavras fáceis e alguns verbos bem simples.
Sou, estou, pareço ou fico?
Usaria um antigo truque que inventei, de inserção instantânea de palavras. “Preguiça”, por exemplo, seria bem disposta no meio do segundo parágrafo, como um dia fiz com “paralelepípedo” para completar um texto que precisava ter um número exato de caracteres.
Escrever é melhor do que perder a paciência. Porque existem aqueles que se enternecem lendo, ouvindo música, jogando baralho, caminhando. Parece que estou fazendo tudo isso enquanto escrevo ― basta sentir. É bom descobrir isso tudo impresso em preto e branco, mesmo que não sirvam pra nada.
O meu desejo agora é escrever redondo. Bem redondo. Curto e circular. E se alguém me pedisse: “mande um texto redondinho aí”, eu me sentaria e criaria um texto quase cartográfico, delimitado, transgressor, técnico e debochado, arrojado, sem eira nem beira – mas quase perfeito.
Estamos perto do ponto final e não decidi ainda qual a palavra que deveria vir buscar, para fechar de modo lúdico. Trata-se de um desejo e não há exatidão que me domine. Eu chutaria qualquer palavra que por aqui viesse me esbarrar em meio a esta catarse.