Da Arca
"AMARELO"
Havia um desejo constante em sua vida: que os dias fossem sempre como aquele. Ensolarados, azuis e silenciosos ao extremo. E que um vento calmo a tocasse discretamente entre uma pincelada e outra. Como uma criança no parque, assim vivia a pintora. Cercada de pincéis, vestindo roupas sujas salpicadas de tinta. Pés descalços, calça jeans, camiseta branca colorida de tinta. Pegadas de tinta pela casa. Quem pode viver feito criança hoje? No braço, ela tatuou o nome do filho; nos olhos, o amor pela vida (ela não sabe, mas fez isso).
Já o homem, que andava triste pela vida, quase empurrado por força divina, precisava de mais cor. Ele chegou em casa e, como de costume, tirou o terno preto, a camisa social branca e a gravata vermelha. No armário, observou a sintonia das cores e estilos de suas roupas. Monotonia. Olhou no espelho a barba grisalha, mas nem precisaria ter observado tanto sua casa, suas roupas, seu rosto - ele inteiro. Já havia decidido: bastava pendurá-la com resolução no melhor lugar da casa. Então, resolveu. “Aqui, bem em cima do sofá, de frente para a poltrona vermelha – meu canto predileto”. E a pendurou.
O decidido era uma tela amarela da pintora. Mas assim, de um amarelo difícil de ser definido. Não se trata de um amarelo sol, nem de um amarelo “cheguei”. Amarelo manga é filme. Aliás, filme pesado, carnívoro, humano demais para uma cor como a do ouro. Talvez a tonalidade que desejo definir seja amarelo-vivo-meio-folha-seca no verão. A cor é forte. Agora, ele se sentia definitivamente ligado à pintora - brincadeirinha fora de hora: amar o elo.
O homem habituou-se a sentar-se durante horas, ouvindo qualquer música – não presta mesmo atenção, já que se apaixonou, enquanto a tela amarela o observa. É a tela que o observa. Às segundas ele acende uma vela à pintora: é que ela vive indo embora.
Quanto ao amarelo, confesso: é um amarelo-texto mesmo.
Havia um desejo constante em sua vida: que os dias fossem sempre como aquele. Ensolarados, azuis e silenciosos ao extremo. E que um vento calmo a tocasse discretamente entre uma pincelada e outra. Como uma criança no parque, assim vivia a pintora. Cercada de pincéis, vestindo roupas sujas salpicadas de tinta. Pés descalços, calça jeans, camiseta branca colorida de tinta. Pegadas de tinta pela casa. Quem pode viver feito criança hoje? No braço, ela tatuou o nome do filho; nos olhos, o amor pela vida (ela não sabe, mas fez isso).
Já o homem, que andava triste pela vida, quase empurrado por força divina, precisava de mais cor. Ele chegou em casa e, como de costume, tirou o terno preto, a camisa social branca e a gravata vermelha. No armário, observou a sintonia das cores e estilos de suas roupas. Monotonia. Olhou no espelho a barba grisalha, mas nem precisaria ter observado tanto sua casa, suas roupas, seu rosto - ele inteiro. Já havia decidido: bastava pendurá-la com resolução no melhor lugar da casa. Então, resolveu. “Aqui, bem em cima do sofá, de frente para a poltrona vermelha – meu canto predileto”. E a pendurou.
O decidido era uma tela amarela da pintora. Mas assim, de um amarelo difícil de ser definido. Não se trata de um amarelo sol, nem de um amarelo “cheguei”. Amarelo manga é filme. Aliás, filme pesado, carnívoro, humano demais para uma cor como a do ouro. Talvez a tonalidade que desejo definir seja amarelo-vivo-meio-folha-seca no verão. A cor é forte. Agora, ele se sentia definitivamente ligado à pintora - brincadeirinha fora de hora: amar o elo.
O homem habituou-se a sentar-se durante horas, ouvindo qualquer música – não presta mesmo atenção, já que se apaixonou, enquanto a tela amarela o observa. É a tela que o observa. Às segundas ele acende uma vela à pintora: é que ela vive indo embora.
Quanto ao amarelo, confesso: é um amarelo-texto mesmo.
