18 maio 2012

Poema noturno

Tarde da noite,
O poema me espreita, soturno.
Como é?

Olha-me de soslaio, disfarçado.
Eu não: encaro-o de frente, fingindo indiferença.
O poema dá um sorriso amarelo.
Teria ele o sol entre seus dentes?

Então, eis que essa poesia, marota,
Se esquece de mim.
Discorre sobre a lua cheia,
A miséria, a finitude e a esperança.
Vela os defuntos,
Acende um clarão, queima-se em si mesma.

É tarde da noite.
Poema insone.
Gatuno, cai macio no meu colo.
Rouba-me a nostalgia e dorme.

29 março 2012

Para o Pedro, com amor

- Mãe, faz uma poesia para mim?

Transformo em mim as palavras que quero te dar. Pra isso, fujo de mim. Faço da timidez um origami; da insensatez uma fábula.

- Eu não queria existir.

- Por que?

- Porque vou ficar murcho e morrer.

A criança que nasceu em mim  às vezes me rouba as palavras. Como lidar? Não sou eu: é mais do que eu.

Aos três anos me deu "amparo". Assim mesmo, com todas as letras, por escrito. Aos seis,  dentes já moles, me pede uma poesia, a qual não consigo compor.

Pois é ele inteiro a minha rima, o meu verso, a minha estrofe em criação. Contudo, é também um verso livre, sem métrica, sem ritmo: os filhos transcendem qualquer poesia.

Pelo ladrão

Às vezes a vida "sai pelo ladrão". Transborda nas pequenas vitórias, com a experiência adquirida ou a falta dela. Extravasa na fome do dia a dia. A vida que sai pelo ladrão é assim:  atravessa os medos, os mares e quem deixamos para trás.
Deságua na maternidade, na igreja ou (mesmo) no cemitério. Tantas outras vezes escapa na música, no amor ou na arte.Família, sono, cinema, um bom papo. O tempo escoando pelo ralo.

A vitalidade que transborda aparece, também, na forma de poesia. Despejando-se nas entrelinhas. E pernoita ali,quietinha, à espreita de um átimo do eterno.

A mangueira da Rua Marquês de São Vicente

Se eu fosse a mangueira da Rua Marquês de São Vicente convidaria aquela moça que passa do outro lado da rua, com olhar admirado, para vir até mim e abraçar-me. Faria com que ela sentisse o cheiro de vida que exalo, mesmo entre tantos tapumes que me cercam. E que ela pudesse propagar a minha existência para os seus amigos e as tantas pessoas que sobem e descem essa rua, preocupadas com as suas contas-correntes e os seus problemas. Assim, daria um jeito de ser notada. Lutaria para que transformassem o terreno baldio onde vivo em algo mais bucólico e acolhedor.

Gostaria que as minhas raízes fossem atrativas para as crianças, e que elas viessem também até mim, carinhosas e displicentes, com sua pureza de alma, brincar de pique-esconde ao meu redor. Se eu fosse a mangueira da Rua Marquês de São Vicente sairia nos jornais, pomposa, por motivos mais nobres que a disputa imobiliária pelo terreno onde "moro", mas pela minha grandiosidade.  Raiz, caule, folha, tronco.Certamente, sendo tão somente uma árvore, não pudesse fazer muito mais do que oferecer mangas, sombra e a minha existência, mas quereria mais, muito mais: frutos e flores. 

Seiva bruta, violenta na sua natureza de ser vegetal e estar ali, aberta aos olhos de quem passa mas não a vê, de quem não a percebe. Arte engenhosa no seu ofício de não-ser, sendo. Assim, e porque a mangueira da Marquês de São Vicente é tanto, desfaço-me no nada que sou e me encerro na tristeza de saber que nunca, em tempo algum, viverei a singela sabedoria de simplesmente "ser", e me conformo com o fato de poder escrevê-la e senti-la. Afinal, eu sei que a seiva que a alimenta é a mesma que me move.

Afeto

AFETO

Se as minhas palavras tivessem poder, eu traria você para dentro delas imediatamente. É. Você mesmo que está aí lendo.  Amarraria seus braços nos meus versos e te sussurraria um girassol em cada ouvido. Passaríamos uma tarde inteira dispersos no meu texto desconexo e tomaríamos um café enquanto constatássemos nossas tantas afinidades.  Viajaríamos de balão e eu te contaria todos os meus verdadeiros sonhos, se os soubesse, é claro. Você estaria lindamente vestido do seu jeito mesmo, seja lá qual for. Porque é de você que eu gosto, e tanto faz se você usa calça jeans e camiseta branca ou um vestido de oncinha.

O céu estaria azul, com poucas nuvens. Acredito que nos olharíamos como se nunca nos tivéssemos visto e esse olhar duraria uma eternidade de quase dois segundos. Você me observaria com curiosidade, quem é ela...?  Mas eu não: eu te olharia com desejo e amor. Um pouquinho de fantasia também, vá lá, já que não sei a razão que te trouxe aqui para dentro do meu texto. E já que estamos a sós, vamos ser diretos: dispa-se logo, que eu te quero. Entregues ao gozo da leitura e da escrita, fumaríamos um cigarro só para manter aquela insegurança das cenas de amor com o tradicional "foi bom pra você"? Mas como as minhas palavras nesse texto têm poder, você estaria preso nelas para sempre, como uma tinta no papel, como um carro numa estrada dirigido por mim. E assim eu iria te levando: esquerda, direita, montanhas, praias, chuva, gargalhadas, afeto.

Meu afeto.

Presente até que um ponto final nos separe.

09 dezembro 2011

O que o vento não levou...(depois de 40 anos...) - Mário Quintana


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo,
um carinho no momento preciso,
o folhear de um livro de poemas,
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...

10 março 2010

Perdido num rascunho de e-mail...

Estranhas são as inspirações que criam coisas assim, esquecidas em rascunhos de e-mail:

"Preciso de uma poesia rápida,tanto quanto o meu pensamento. Vermelha como o meu sangue, e que não seja possível perceber sua forma: de flor, de amor ou de dor. Uma rima pobre, por favor! Porque não sei bem o que quero dizer, embora, com afeto, saiba a quem. Estou com pressa. Invento num estalo um carinho, mas, no mesmo embalo, termino.

Para que a pressa?

(A intenção era dizer pouco, ao pé do ouvido, o que diria por texto alheio. Uma vez questionada se o tal texto poético era meu, não resisti: o escrevi. E como é bom agora deixá-lo fervendo nas suas mãos sensíveis!).

06 fevereiro 2010

Curtinhas

Vida

Inspiro e expiro

Inexplicável suspiro

Piro


Haiti

Ai de ti

Haiti

Por ti senti


Paixãozinha

Penso nele

Sempre propenso

A ser apenso


Literatura

Sol na cabeceira

Espreguiça meus livros

E afugenta abismos


Tostines

Solidão causa inexpressividade

Ou inexpressividade

Causa solidão?


Análise

Para sólidas solidões

Basta com o sol lidar

(consolidar-se?)


Pagã

Para um Haicai

Tudo é pauta

Mas só Deus é poder


Inspiração

Clarice Lispector

Musa obtusa

É mais amor


Química

Nele amo

O que em mim é química

Reações


Ócio

Dois pinguins na lata

Alguns bêbados na frente

Inércia criativa


Pensamento da pintora

Tristão e Isolda

Fogo e paixão

Vermelho impossível


Chocolate

Chocolate

Triptofaneia

Veia que late


Mãe

Escuto o filho

Mil ouvidos

Uma alma inteira


Inconsciente

Há tesão na busca

Saber o que não sei que sei

Mas sou.

19 janeiro 2010

Tombo

Penso que jamais escreverei um romance. Requer elaboração e eu sou assim: um tombo. Caio no meio das palavras de repente, quebro todos os dentes da frente e me levanto sem jeito, espanando os joelhos e rindo sem graça. E quando penso que os pés estão firmes ou ninguém viu a queda, passeio lentamente e descubro que para além da dor perdi aquele nada que me trouxe até aqui (só para lembrar do Manoel de Barros, que hoje veio à tona).

03 outubro 2009

Os malvados

Esse cara é genial, sou muito fã.