30 outubro 2015

Sexta é dia de sonhar...



Quem sonha (Jorge Luis Borges)

Que terá sonhado o Tempo até agora, que é, como todos os agoras, o ápice? Sonhou a espada, cujo melhor lugar é o verso. Sonhou e lavrou a sentença, que pode simular a sabedoria. Sonhou a fé, sonhou as atrozes Cruzadas. Sonhou os gregos que descobriram o diálogo e a dúvida. Sonhou a aniquilação de Cartago pelo fogo e o sal. Sonhou a palavra, esse torpe e rígido símbolo. Sonhou o êxtase que tivemos ou que agora sonhamos ter tido. Sonhou a primeira manhã de Ur. Sonhou o misterioso amor da bússola. Sonhou a proa do norueguês e a proa do português. Sonhou a ética e as metáforas do mais estranho dos homens, o que morreu uma tarde em uma cruz. Sonhou o sabor da cicuta na língua de Sócrates. Sonhou esses dois curiosos irmãos, o eco e o espelho. Sonhou o livro, esse espelho que sempre nos revela outra face. Sonhou o espelho em que Francisco López Merino e sua imagem viram-se pela última vez.





Sonhou o espaço. Sonhou a música, que pode prescindir do espaço. Sonhou a arte da palavra, ainda mais inexplicável que a da música, porque inclui a música. Sonhou uma quarta dimensão e a fauna singular que a habita. Sonhou o número da areia. Sonhou os números transfinitos, aos quais não se chega contando. Sonhou o primeiro que no trovão ouviu o nome de Thor. Sonhou as opostas caras de Jano, que nunca serão vistas. Sonhou a lua e os dois homens que caminharam pela lua. Sonhou o poço e o pêndulo. Sonhou Walt Whitman, que decidiu ser todos os homens, como a divindade de Spinoza. Sonhou o jasmim, que não pode 
saber que o sonham. Sonhou as gerações das formigas e as gerações dos reis. Sonhou a vasta rede que tecem todas as aranhas do mundo. Sonhou o arado e o martelo, o câncer e a rosa, as campanadas da insônia e o xadrez. Sonhou a enumeração que os tratadistas chamam caótica e que, de fato, é cósmica, porque todas as coisas estão unidas por vínculos secretos. Sonhou minha avó Frances Haslam na guarnição de Junín, a um palmo das lanças do deserto, lendo sua Bíblia e seu Dickens. Sonhou que nas batalhas os tártaros cantavam. Sonhou a mão de Hokusai, traçando uma linha que logo será uma onda. Sonhou Yorick, que vive para sempre em umas palavras do ilusório Hamlet. Sonhou os arquétipos. Sonhou que ao longo dos verões, ou em um céu anterior aos verões, há uma só rosa. Sonhou os rostos de teus mortos, que agora são embaçadas fotografias. Sonhou a primeira manhã de Uxmal. Sonhou o ato da sombra. Sonhou as cem portas de Tebas. Sonhou os passos do labirinto. Sonhou o nome secreto de Roma, que era sua verdadeira muralha. Sonhou a vida dos espelhos. Sonhou os signos que traçará o escriba sentado. Sonhou uma esfera de marfim que guarda outras esferas. Sonhou o caleidoscópio, grato aos ócios do enfermo e do menino. Sonhou o deserto. Sonhou o amanhecer que espreita. Sonhou o Ganges e o Tâmisa, que são nomes da água. Sonhou mapas que Ulisses não teria compreendido. Sonhou Alexandre da Macedônia. Sonhou o muro do Paraíso, que deteve Alexandre. Sonhou o mar e a lágrima. Sonhou o cristal. Sonhou que Alguém o sonha.


A suma (Jorge Luis Borges)

Ante a cal de uma parede que nada
 nos veda imaginar como infinita
 um homem se sentou e premedita
 traçar com rigorosa pincelada
 na branca parede o mundo inteiro:
 portas, balanças, tártaros, jacintos,
 anjos, bibliotecas, labirintos,
 âncoras, Uxmal, o infinito, o zero.

Povoa de formas a parede. A sorte,
 que de curiosos dons não é avara,
 lhe permite dar fim à sua porfia.

No preciso instante da morte
 descobre que esta vasta algaravia
 de linhas é a imagem de sua cara.

18 setembro 2015

Sucesso X Fracasso

Quando começo a escrever a minha sensação é de que vá resultar num texto de grande sucesso.É o começo de algo que não sei ainda como vou terminar. O percurso, a busca das palavras, de sentido, de tudo o que pretendo expressar – em geral nada que interesse a ninguém – mas esse jogo me anima e me traz um sopro de alegria. As palavras vão me transformando. É como se só por aqui eu fosse melhor, porque preciso de palavras, mais do que tudo. Pesadas, leves, tristes, alegres: é como se eu tivesse o poder de mudar o mundo. Ou alguém.  Mas aí vem alguém falar comigo sobre sucesso. O que é o sucesso? Certamente possuímos ideias diferentes sobre o que é o sucesso. Para alguém, como eu, que gosta de escrever, sucesso é apenas mais uma palavra. Sendo apenas isso, estou bem, pois delas retiro o "meu" sucesso. Delas, retiro mais do que isso, o meu prazer. 

Mas é um fato que prefiro o fracasso. Por aqui não há espaço em branco que não seja preenchido. Sou, com sucesso invejável, o fracasso que sonhei. Não sei fugir disso, embora venha tentando.
Não me tornar um sucesso, como venho fazendo, é quase como escapar da morte. Destrincho-me em palavras. Uma a uma, cautelosamente.  O meu fracasso tem um método implacável.  As perdas são transformadas em poesia; as tristezas, em praia; as frustrações, em amigos; e o que tudo o que eu não sei dizer ou explicar, em amor.
E o amor, todos sabemos, é um fracasso.
Luto

Há uma poesia moribunda bem aqui.
Doente, desfalecida, febril, agonizante.
Em seu último estágio, prestes a falecer.

Quer dizer, mas não diz.
Quer amar, mas não ama.
Quer desejar, mas não deseja.
Quer viver, mas não vive.
Quer.

O tempo a atropelou.
Passou-lhe por cima sem vê-la.
Revirou-a do avesso, jogou-a longe.
Quebrou-lhe o verso.
Tirou-lhe a inspiração.
Ou brigo para para salvá-la
ou aceito o luto.

10 setembro 2015

Filme: "Que Horas ela Volta?"


Semana passada assisti ao filme "Que horas ela volta?", de Anna Muylaert, mas só hoje consigo tempo para falar dele por aqui. A história do filme é tão comum na nossa realidade que fico me perguntando como ninguém até hoje a havia feito. Mérito de Anna! Ainda mais por isso é um filme obrigatório, que tira o ponto de vista do olhar do patrão, passando-o para o da empregada. Sim, aquela que vem para o sudeste tentar a vida e "abandona" a filha, sustentando-a como pode, e de longe. Quem nunca ouviu uma história semelhante ou igual a esta? Lá em casa tivemos uma empregada que não só deixou a filha na Paraíba, como a entregou para um casal que não podia ter filhos e queria adotá-la.  Deixou-a lá, ainda bebê, e veio embora,  acreditando que a menina estaria melhor cuidada por eles do que por ela. Nunca mais saber da filha foi parte do acordo entre eles. Ela me contou esta história sem muito pesar, realista. Mas, voltando ao filme: a reviravolta provocada pela filha de Val, maravilhosamente interpretada por Regina Casé, é a reviravolta que sempre existiu na tal da luta de classes. Uma fala de Jéssica, a filha que causa a reviravolta no filme, me chamou muita atenção e com ela que eu termino este post: "Não é que eu me ache melhor do que ninguém aqui, mãe, apenas não me acho pior".  Agora só falta os patrões pensarem da mesma maneira.

03 setembro 2015

Aylan
Faz anos que não venho aqui. Havia perdido a senha, mas também a inspiração e o desejo de me expor. Mas hoje alguma coisa reacendeu em mim. Foi como se eu me lembrasse que tenho voz e minha arma, talvez a única, seja a palavra. Só com elas é possível enfrentar este mundo.
Cheguei a pensar que tivesse perdido a capacidade de me expressar pela escrita, como sempre fiz e gostei de fazer. Há tanta informação, vários textos para ler, vídeos para ver, músicas para ouvir e coisas para fazer, que me faltava este silêncio para simplesmente recomeçar. Além disso, também me faltava uma razão, que hoje me veio da pior maneira: a foto do menino Aylan em todos os jornais e viralizando na internet me comoveu de tal modo que aqui estou, tentando dizer o indizível. Porque, lamentavelmente, nada do que eu disser vai mudar nada. O sol nascerá amanhã e depois e depois e depois... e nessa repetição louca de um dia após o outro, os fatos vão sendo esquecidos, se dissipando neste turbilhão de assuntos e problemas do dia a dia e nos nascimentos e mortes diários, e nas tragédias e alegrias que todos temos. Essa imagem é a prova mais contundente do ponto covarde e egoísta a que humanidade chegou.
E aí, não sei por que, me veio à mente o meu filho me dizendo há alguns anos: "Eu não queria ter nascido, mãe! Porque eu não quero morrer!!". E penso que quando criança eu também dizia o mesmo. E hoje ainda repito: não, eu não queria ter nascido. Não porque sei da morte, mas porque sei de assassinatos como este.

Me desculpe, meu filho, por te trazer a este mundo.

18 maio 2012

Poema noturno

Tarde da noite,
O poema me espreita, soturno.
Como é?

Olha-me de soslaio, disfarçado.
Eu não: encaro-o de frente, fingindo indiferença.
O poema dá um sorriso amarelo.
Teria ele o sol entre seus dentes?

Então, eis que essa poesia, marota,
Se esquece de mim.
Discorre sobre a lua cheia,
A miséria, a finitude e a esperança.
Vela os defuntos,
Acende um clarão, queima-se em si mesma.

É tarde da noite.
Poema insone.
Gatuno, cai macio no meu colo.
Rouba-me a nostalgia e dorme.

29 março 2012

Para o Pedro, com amor

- Mãe, faz uma poesia para mim?

Transformo em mim as palavras que quero te dar. Pra isso, fujo de mim. Faço da timidez um origami; da insensatez uma fábula.

- Eu não queria existir.

- Por que?

- Porque vou ficar murcho e morrer.

A criança que nasceu em mim  às vezes me rouba as palavras. Como lidar? Não sou eu: é mais do que eu.

Aos três anos me deu "amparo". Assim mesmo, com todas as letras, por escrito. Aos seis,  dentes já moles, me pede uma poesia, a qual não consigo compor.

Pois é ele inteiro a minha rima, o meu verso, a minha estrofe em criação. Contudo, é também um verso livre, sem métrica, sem ritmo: os filhos transcendem qualquer poesia.

Pelo ladrão

Às vezes a vida "sai pelo ladrão". Transborda nas pequenas vitórias, com a experiência adquirida ou a falta dela. Extravasa na fome do dia a dia. A vida que sai pelo ladrão é assim:  atravessa os medos, os mares e quem deixamos para trás.
Deságua na maternidade, na igreja ou (mesmo) no cemitério. Tantas outras vezes escapa na música, no amor ou na arte.Família, sono, cinema, um bom papo. O tempo escoando pelo ralo.

A vitalidade que transborda aparece, também, na forma de poesia. Despejando-se nas entrelinhas. E pernoita ali,quietinha, à espreita de um átimo do eterno.

A mangueira da Rua Marquês de São Vicente

Se eu fosse a mangueira da Rua Marquês de São Vicente convidaria aquela moça que passa do outro lado da rua, com olhar admirado, para vir até mim e abraçar-me. Faria com que ela sentisse o cheiro de vida que exalo, mesmo entre tantos tapumes que me cercam. E que ela pudesse propagar a minha existência para os seus amigos e as tantas pessoas que sobem e descem essa rua, preocupadas com as suas contas-correntes e os seus problemas. Assim, daria um jeito de ser notada. Lutaria para que transformassem o terreno baldio onde vivo em algo mais bucólico e acolhedor.

Gostaria que as minhas raízes fossem atrativas para as crianças, e que elas viessem também até mim, carinhosas e displicentes, com sua pureza de alma, brincar de pique-esconde ao meu redor. Se eu fosse a mangueira da Rua Marquês de São Vicente sairia nos jornais, pomposa, por motivos mais nobres que a disputa imobiliária pelo terreno onde "moro", mas pela minha grandiosidade.  Raiz, caule, folha, tronco.Certamente, sendo tão somente uma árvore, não pudesse fazer muito mais do que oferecer mangas, sombra e a minha existência, mas quereria mais, muito mais: frutos e flores. 

Seiva bruta, violenta na sua natureza de ser vegetal e estar ali, aberta aos olhos de quem passa mas não a vê, de quem não a percebe. Arte engenhosa no seu ofício de não-ser, sendo. Assim, e porque a mangueira da Marquês de São Vicente é tanto, desfaço-me no nada que sou e me encerro na tristeza de saber que nunca, em tempo algum, viverei a singela sabedoria de simplesmente "ser", e me conformo com o fato de poder escrevê-la e senti-la. Afinal, eu sei que a seiva que a alimenta é a mesma que me move.

Afeto

AFETO

Se as minhas palavras tivessem poder, eu traria você para dentro delas imediatamente. É. Você mesmo que está aí lendo.  Amarraria seus braços nos meus versos e te sussurraria um girassol em cada ouvido. Passaríamos uma tarde inteira dispersos no meu texto desconexo e tomaríamos um café enquanto constatássemos nossas afinidades.  Viajaríamos de balão e eu te contaria os meus sonhos. Você estaria lindamente vestido do seu jeito mesmo, seja lá qual for. Porque é de você que eu gosto, e tanto faz o resto.

O céu estaria azul, com poucas nuvens. Acredito que nos olharíamos como se nunca nos tivéssemos visto e esse olhar duraria uma eternidade em poucos segundos. Você me observaria com curiosidade.  Mas eu não: eu te olharia com amor. Um pouquinho de fantasia também, vá lá, já que não sei a razão que te trouxe até aqui, dentro do meu texto.

09 dezembro 2011

O que o vento não levou...(depois de 40 anos...) - Mário Quintana


No fim tu hás de ver que as coisas mais leves são as únicas
que o vento não conseguiu levar:

um estribilho antigo,
um carinho no momento preciso,
o folhear de um livro de poemas,
o cheiro que tinha um dia o próprio vento...